sábado, 21 de fevereiro de 2015

Amor
É um presente
Grego, um assassino
Pra lá de sutil, um vaso
Que nos foi dado e é horrível,
Mas enfeita a sala e nos mata
Aos poucos, uma barata voadora
Que burlou a basculante e aguarda
No banheiro sorrateiramente alguém
Que acenda a luz desesperada
Que leva ao vôo e ao abraço.

Amor é um presente
Grego... Não precisou
Arrombar as portas,
Penetrou-me porque
Deixei... Depois destrancou
Tudo de dentro pra fora.

Um presente
Grego: Cavalo de Troia
À minha porta te levei
Aos meus celeiros suaves -
Me mordeste, és indomável!
Cavalo de Troia
À minha porta -
Te amei e tu,
Farejando campos além,
Fugiste em desespero
E cio...

domingo, 25 de janeiro de 2015

Todas vezes
Que tomaste na rua
Sexos alheios por pura
Perversão, eu
Em casa sabia.

Não sou tua dona,
Sou pobre e singela,
Sou, antes de tudo,
Eu mesma a tua escrava

- Mas não sou burra:
Minha pele sente de longe
Quando a tua pele cheira
A suor de boemias,
Meus lábios sabem
Só de olhar teus lábios
Que beijaste na rua
Alguém que te sacia o corpo
Mas não cuida da tua alma
Quando esta fica doente
E arredia como uma onça.

Sinto com minha vontade
A tua desvontade de me ter:
És aquele cavalo guloso e ainda infantil
Que bebe a água suja das sarjetas
E depois não tem mais sede
Diante de um lago límpido
Que sou eu.

Não sou tua dona, sou pobre, sou
Singela, por isto não posso cobrar
Uma dívida que tu comigo não tens...

Não sou tua dona,
Contudo, tenho o direito de sofrer
Por saber que todo o dia
Quem cozinha e passa
Pra ti sou eu:

A casa
Limpa, vestido de fitas mui mimoso...
Não mo reparaste...

sábado, 17 de janeiro de 2015

Esta é a lembrança
Que eu tenho de ti:
Nos sábados mais escuros
Do mês colocavas saias
Rodadas coloridas
E pintavas o rosto
Moreno e partias
A dançar.

Onde foi
Que te escondeste
Agora? Lá fora
O som estonteante
De tambores negros
Acordando o ritmo
Do que há de mais
Frenético na alma -
Onde foi
Que te
Escondeste?

Ainda espero,
Tenho muita fé,
Vais aparecer no meu quarto
No clarear de um domingo
De sol delicado
Como teu sorriso
Cansado

- Voltas da boemia
E eu te recebo
Como um açoite
Nas minhas costas
De escrava triste
E dependente...

(Nesta época
Uma mulher que amasse
Homens e mulheres
Era considerada perdida
E criminosa)

Esta é a lembrança
Que eu tenho de ti.

domingo, 11 de janeiro de 2015

A mãe
Me deu você
Sem me dar:

Fiquei eu
Na tua mão
À deriva -
Acho que és
Um oceano inteiro
Com olhos verdes
De mar.

A mãe
Me deu você
Sem me dar,
E eu me dei também:
Sou água e ar, volume enorme,
Ocupo tudo, filha de Iemanjá linda,
Sou jovem de alma, por isso amo
Sem pensar.

Onde andas agora?
A Mãe Caprichosa
Achou que já era tarde demais
E encerrou o brinquedo
Das crianças. A noite,
Dormimos juntos no sal
Das ondas...

Ai, mãe, que dor -
Acordei sozinha:
O amor foi pescar
E não voltou.

Negra,
Negra por fora
E por dentro
Eu acordei.

À mesa falta peixe,
Ao dia, luz...